Depois de enlouquecer totalmente e começar a protagonizar manchetes dignas de Britney Spears, Tom Cruise foi praticamente chutado da Paramount, estúdio que distribuía a maioria de seus filmes. Ao lado da sua sócia Paula Wagner, então, assumiu o controle da United Artists, um dos estúdios mais antigos de Hollywood (um de seus fundadores foi Charles Chaplin), que já não andava bem das pernas há muito tempo.
E Cruise sabia que seu primeiro projeto à frente do estúdio deveria ser algo arrebatador, justamente para recuperar sua imagem, totalmente arranhada. Pegando um tema complexo e polêmico (a presença americana no Oriente Médio), Cruise convocou um elenco de peso, reunindo (além de si próprio), Meryl Streep e Robert Redford; e escalou o último, inclusive, para dirigir a fita. Ou seja, desde o início, era um projeto que tinha tudo para agradar a crítica (graças ao tema) e ao público (devido ao elenco estelar). Não tinha como dar errado.
Mas deu.
Leões e Cordeiros é um projeto tão ambicioso quanto mal sucedido. A história é dividida em três frentes: na primeira delas, um jovem senador (Cruise) tenta vender a uma jornalista (Meryl Streep) a idéia de um novo plano de ação no Oriente Médio; na segunda, um professor de ciências políticas (Redford) tenta convencer um aluno desencantado com a situação do país a não abandonar o curso; e, por fim, temos dois soldados (ex-alunos do personagem de Redford) encurralados atrás das linhas inimigas no front.
Costurados com perfeição, esses três atos, juntos, poderiam transformar Leões e Cordeiros em um dos melhores filmes do ano. Porém, o filme falha justamente naquele que deveria ser mais importante. O núcleo estrelado por Redford é cansativo e parece não chegar a lugar algum, falhando miseravelmente em fazer a ponte entre os outros dois, que funcionam melhor. Com diálogos insossos e desnecessários, ele acaba deixando de ser interessante e acaba afundando o filme.
Os outros dois núcleos funcionam melhor, mas também estão longe de serem perfeitos. Enquanto o núcleo que aborda os dois soldados não evolui em absolutamente nada durante o segundo ato da trama (mas consegue manter o interesse, admito), o de Cruise é o que funciona melhor. E, surpreendentemente, o ator até funciona como o ambicioso senador, empregando uma simpatia quase forçada para vender sua idéia à jornalista e aos espectadores.
Mas claro que chega a ser desumano colocarem Tom Cruise e Meryl Streep contracenando, sozinhos, durante tanto tempo. Atuando de forma contida e apenas reagindo às frases de Cruise, Meryl engole a cena sem grandes dificuldades. Afinal, engolir outros atores é uma constante na carreira dela na mesma intensidade que ser engolido por qualquer ator é um velho hábito de Cruise. Aliás, Leões e Cordeiros estabelece um novo recorde na carreira do ator. Antes da projeção, é exibido o trailer de Operação Valquíria, novo trabalho do ator (que deve estrear no meio do ano), no qual ele divide a tela com Kenneth Branagh. Ou seja, Leões e Cordeiros é o primeiro filme de sua carreira no qual ele é engolido antes mesmo do filme começar.
Mas o surpreendente é o filme ter fracassado nos Estados Unidos, onde teve uma bilheteria pífia. Aparentemente, o americano não está disposto a ir ao cinema para pensar sobre a Guerra no Oriente Médio. A impressão que dá é que, mesmo estando (atualmente) contra a guerra, os americanos não querem tocar no assunto – a prova disso é que nenhum filme sobre o tema, até agora, foi bem recepcionado. E, aqui no Brasil, o filme certamente não funciona também: diálogos demais, pouca ação e um assunto norte-americano demais para nosso público.
Em suma, o primeiro trabalho de Tom Cruise à frente da UA está longe de ser uma bomba, mas será lembrado como primeiro grande fracasso da carreira de um ator acostumado a ver seus filmes ultrapassarem a marca de US$ 100 milhões de bilheteria somente nos Estados Unidos. Na guerra entre Estados Unidos e terroristas, quem perdeu foi ele.
quinta-feira, 29 de novembro de 2007
Leões e Cordeiros
Marcadores: Cinema
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1 Comment:
Gostei muito do texto!
Vi o filme e fiquei com a mesma impressão que você: o filme tinha tudo pra dar certo, mas não deu. As cenas são enfadonhas, o enredo não empolga...
Pra mim, o mais importante de um filme é o roteiro. Se ele for bem amarrado, qualquer história fica interessante. Outra coisa é que o cinema é, em primeiro lugar, entetenimento. E esse filme faz a gente - ou pelo menos me fez - ficar com vontade de dormir.
Aliás, eu não sei se eu já tinha comentado aqui antes... Mas ótima a idéia do blog e ótimas as críticas!
Bjos
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