quarta-feira, 28 de novembro de 2007

Eric Clapton - A Autobiografia

“Clapton é Deus”. No final dos anos 60, pichações com essas inscrições começaram a aparecer nos muros de Londres, anunciando que um novo mito da música pop estava surgindo. Hoje, quatro décadas depois, Eric Clapton confirmou essa previsão e tornou-se, mais que um músico, um artista de quilate invejável. Seu nome foi alçado à condição de grife e só não se tornou um mito pois continua gravando com regularidade – não podemos esquecer que a condição sine qua non para um artista se tornar mito é morrer ou desaparecer da mídia.

Entretanto, ele parece longe de concordar com o status que lhe foi atribuído, como deixa claro em sua recém-lançada autobiografia. Em momento algum do livro ele questiona a qualidade do seu trabalho como um todo (mas acusa alguns trabalhos e gravações específicas de terem baixa qualidade), mas faz questão de afirmar que está longe de ser o melhor guitarrista do mundo, apontando, frequentemente, diversos guitarristas de blues como superiores a ele.

Aliás, o blues é uma constante na vida de Clapton – e, consequentemente, no livro. Sem esconder em momento algum sua paixão pelo estilo, confessa que muita parte dos trabalhos realizados em seus primeiros anos não o satisfaziam por serem comerciais demais devido a imposições de agentes e gravadoras, mais interessados em possuir um hit que uma música que respeitasse as raízes do blues. Apesar de nascer no rock, em bandas como Yardbirds e Cream, e em parcerias com ícones como Beatles (em especial com o amigo George Harrison), Rolling Stones, Jimi Hendrix e Bob Dylan, Clapton foi concebido no blues, ritmo que o impulsionou, ainda adolescente, a colocar as mãos numa guitarra.

Porém, mesmo girando obviamente em torno do universo musical dos anos 60 e 70 (e conte aí histórias sobre bastidores de discos e shows históricos), o livro está longe de ser um livro sobre o guitarrista Eric Clapton, preferindo ir além e abordar a pessoa Eric Clapton. E é justamente aí que ele deixa de ser uma obra com passagens interessantes sobre o universo musical, narradas por quem estava dentro dele (ou seja, o mínimo que poderia se esperar) e acaba tornando-se um livro denso, e até mesmo sombrio em alguns momentos.

Claro, a música está presente em todas as páginas da obra. Aliás, um dos poucos defeitos do livro é a ausência dos anos exatos em que os acontecimentos se passam, já que tudo é situado cronologicamente pelos discos, e seria necessária uma discografia com datas ao fim do livro para melhor acompanhamento. Mas a música jamais é o foco central da narrativa, e sim o pano de fundo no relato de um artista que, ao esbanjar genialidade, disfarçava totalmente a insegurança e a baixa auto-estima que sempre sentiu por si próprio. Eric Clapton - a Autobiografia soa como um desabafo, ou uma tentativa do autor em conseguir se livrar de tudo o que passou ao longo dos primeiros cinqüenta anos de sua vida, desmistificando-o totalmente.

E os murros no estômago começam desde sua infância, quando descobre que seus pais, eram, na verdade, seus avós já que ele é fruto de uma aventura entre sua irmã mais velha e um soldado. Essa ausência de uma mãe verdadeira – durante toda a vida, teve pouco contato com a irmã, mesmo após saber que se tratava de sua mãe – refletirá em praticamente toda a sua vida. A grande tragédia pública que sofreu – a morte do filho Connor, após cair do 53º andar de um prédio – é apenas a ponta do iceberg em uma existência confusa e, na maior parte do tempo, profundamente infeliz, como ele faz questão de narrar com uma sinceridade absurda.

Em alguns momentos, chega a ser espantosa a honestidade com que Clapton discorre sobre fatos como sua insegurança, baixa auto-estima, romances fracassados e noitadas regadas com drogas. Enquanto constrói uma carreira musical sólida, com momentos de genialidade pura e tocando ao lado de grandes nomes do blues e do rock, transforma sua vida pessoal num desastre, o que culminaria no seu vício em drogas e álcool que perdurou por parte da sua vida, quase o destruindo financeira, profissional e emocionalmente.

Em cada página, fica a sensação de que Eric Clapton, até muito pouco tempo atrás, sentia-se deslocado em qualquer meio que estivesse, seja musical ou não. Apaixonava-se com rapidez por uma mulher ou um projeto e desapaixonava da mesma forma. Sua passagem por vários conjuntos em tão pouco tempo ilustra isso com perfeição. Ao mesmo tempo, porém, esse fato deixa claro que seu verdadeiro amor sempre foi a música em estado puro, e jamais sua carreira musical, ao menos vista por um prisma profissional. A prova disso é a banda Derek & The Dominos, que omite o nome do guitarrista, pois era seu desejo que as pessoas ouvissem as músicas pela qualidade que apresentavam, e não apenas por se tratar de um novo trabalho de Eric Clapton.

Esse sentimento de não pertencer a lugar algum, estimulado pelo caótico universo do rock dos anos 70, encontra um intervalo apenas em sua paixão avassaladora por Patty Boyd, então esposa de seu melhor amigo, George Harrison. Provavelmente o relacionamento amoroso mais importante em toda a sua vida, seu romance com Patty é responsável por uma de suas fases mais criativas musicalmente, mas, também, por um dos seus momentos mais auto-destrutivos, no qual mergulha cada vez mais nas drogas e na bebida, chegando ao cúmulo de mal conseguir segurar a guitarra em muitos shows. Em meio a isso, outros relacionamentos, alguns que fracassam grandiosamente e outros que já nasciam mortos temperavam sua vida.

Os vícios lhe renderam duas internações – sendo que, na primeira delas, assume honestamente que fingiu aproveitar o tratamento apenas para conseguir voltar a beber – e sua vida parece se estabilizar somente quando se livra deles, após a grande virada de sua vida: quando resolve literalmente, assumir para si próprio que precisa de ajuda e cai de joelhos num quarto implorando por alguma espécie de perdão. A partir daí, nos anos 90, que realmente parece encontrar a felicidade, assumindo totalmente o controle sobre sua carreira (e a dirigindo para o blues), com um casamento mais estável e conseguindo se aceitar como pai – algo narrado com certa pressa pelo autor, que visivelmente trata essa fase como uma espécie de conclusão em sua vida.

O interessante é que, mesmo nessa época mais tranqüila, ele não esconde as cicatrizes de seu passado, que são muitas. E doloridas. Por isso não chega a ser espantoso quando trata a morte de Connor com certa frieza no livro. Não se trata de arrogância ou pouco caso, mas da dificuldade que ele ainda tem em lidar com certos temas. Tanto que a ausência das figuras maternas e paternas, o relacionamento com Patty e sua dependência de drogas são sentidos até as últimas linhas.

Mais que uma odisséia sobre um músico, o livro, na verdade, é, antes de ser uma biografia, a forma que o artista encontrou de expiar seus pecados e erros ao longo dos anos. Trata-se de um homem que relata algumas dores que carrega consigo e que apenas ele irá entendê-las totalmente. Talvez seja por isso que o livro aborda quase nada do seu processo criativo. Suas composições apenas refletem o que ele vivia, e foram criadas para que o guitarrista conseguisse exteriorizar seus sentimentos (ou, ao menos, lidar com eles). Mesmo que nós admiremos sua obra, jamais conseguiremos entendê-la como ele, que sentiu na pele a maior parte de tudo o que canta. Eric Clapton é mais que um “simples” deus da guitarra; ele é – para espanto de muita gente – um sobrevivente.

2 Comments:

Daniel Ruschel said...

Parabéns Rob Gordon pela síntese muito bem elaboradad da autobiografia de Clapton. Realmente nunca gostei dele, mas a última fase ele parece estar melhor. Na verdade, só gosto dele agora, depois da turne one mor car, one more rider. Antes, clapton nunca pareceu deus da guitarra e eu achava ele mesmo um cara transtornado em palco, parecendo sempre atucanado e sem muita criatividade, Acho que depois de ele assumir que estava afundado realmente é que ele pode dar a volta por cima e hoje, ver ele tocando mostra que por muito tempo as drogas esconderam seu verdadeiro talento!!!

Scott said...

Daniel, eu sou fã sim de Clapton. Mais como um guitarrista do que, exatamente, pelos seus trabalhos. Mas vê-lo tocando com George Harrison, John Lennon, ou os Stones, quando ainda muito jovem, deixa claro para qualquer um que ali estava um guitarrista inigualável. Se você consegue tirar algum som minimamente organizado do braço de uma guitarra ou violão vai entender o que eu digo. Dizer que ele parecia sem criatividade é dizer abobrinha. Adjetivos como o de "deus da guitarra" só demonstram a noção que as pessoas tinham dele, de alguém inigualável naquilo que fazia com o instrumento. De fato, só me dispus a comentar o seu comentário pq é o primeiro sujeito que vejo desmerecendo Clapton. E se você acha que drogas escondiam seu talento é porque não sabe nada sobre drogas. Ou sobre talento. Te recomendo ver o show "The Rolling Stones Rock & Roll Circus". Há uma única apresentação dele com John Lennon, Mitch Mitchell e Keith Richards. Ele estava chapado (como todos os outros), mas o que faz com a guitarra, brincando, eu nunca consegui fazer em 20 anos estudando essa coisa.